domingo, 30 de novembro de 2008

"O Sonho Europeu" de Marta Carvalho (12ºF) - 2º prémio no Concurso Europeu , 2008, categoria trabalho escrito individual

“Próxima paragem: Santa Apolónia!”. Melissa tinha adormecido por breves instantes e só despertara com o aviso de que, finalmente, chegara ao seu destino. A viagem tinha sido longa e, exausta, olhava agora a paisagem: o verde da simplicidade da sua terra dava lugar ao cinzento dos prédios inacabados e às cores garridas da vida citadina. Parecia-lhe difícil imaginar-se longe da família, daqueles que mais amava. Pôs o pé numa nova cidade, e à medida que caminhava deixava uma vida para trás e seguia em frente, em busca de um sonho. Ao chegar à sua nova residência, Driss recorda as casas caiadas da cidade onde cresceu e a pequena loja de artesanato dos pais. Casablanca já não era a mesma cidade que os Portugueses criaram em 1515. Tinha-se tornado a maior cidade de Marrocos, encobrindo, contudo, a pobreza que não convinha mostrar ao mundo. À semelhança dos seus colegas, Driss vinha em busca do sonho europeu. Sabia que as condições do seu trabalho seriam precárias e que os primeiros tempos não se adivinhavam fáceis. Era jovem e ambicioso, com a certeza plena que só com esforço e dedicação poderia afirmar-se na sociedade. Apesar dos seus estudos e capacidades, apenas tinha emprego na construção civil. Mas não baixava os braços, era um lutador. As aulas tinham começado e, apesar das dificuldades de adaptação, Melissa já tinha uma amiga: Ana. Unidas pela nostalgia do Norte, debatiam-se, todos os dias, com as diferenças de comportamentos e de mentalidades, e pensavam: “Como é possível que dentro de um mesmo país exista tanta diversidade?”. Ao anoitecer, num dia de Inverno rigoroso, quando regressava das aulas, sozinha Melissa descia a rua até à residencial. Eis que é surpreendida por dois homens que a amarram, numa tentativa de roubo. Ao ouvirem um barulho, alguém que se aproximava, os assaltantes são desencorajados e fogem. Caída no chão, Melissa vê uma mão a estender-se na sua direcção e, sem hesitação, aceita a ajuda. Recomposta e com um sincero “obrigada!”, descobre um belo rosto de tez morena que a recebe com um sorriso. Na busca de um sentido, deambulando pelas ruas da cidade, Driss acaba por ajudar alguém que, como ele, precisava de um ombro amigo. Ficaram amigos. Sim. Mas talvez um sentimento mais forte, eterno, e inexplicável os unia: o amor. Passavam os dias juntos, a conversar, os fins de tarde a olharem o pôr-do-sol e, à noite, separados por um mar de diferenças, imaginavam como seria bom poderem estar juntos. Mas, a Lua chegava e, cada um no leito, adormeciam na esperança de um novo amanhecer. Os dias foram passando, Melissa e Driss continuavam amigos, construindo o seu amor como uma calçada, onde cada pedra se fortalece com o tempo. Juntos estavam bem, esqueciam as diferenças, as dificuldades e a discriminação. Juntos eram iguais; filhos da mesma criação. Embora com crenças distintas, o Deus era o mesmo, que os criou à sua imagem e semelhança para que, embora diferentes, se pudessem amar uns aos outros como Ele os amava. A primavera estava a chegar e com ela o termo dos 6 meses de trabalho para Driss. Em Abril, teria de deixar Portugal com os sues companheiros, de regresso a casa, ou tentar a aventura de sobreviver num país diferente, sem a família e sem qualquer garantia de futuro. Apesar das longas conversas com Melissa, Driss nunca lhe contara este triste final do seu sonho na Europa. Porventura ainda não tinha tomado uma decisão. Mas agora que a data se aproximava era tempo de reflectir e decidir o que fazer. Vislumbrava duas hipóteses possíveis: regressa para Marrocos e esquecia a sua “bela portuguesinha”, como chamava a Melissa, ou persistia no seu amor e lutava com veemência. Até ao último dia, Melissa desconhecia a decisão que o seu enamorado havia tomado. “Teria ele coragem para deixar para trás tudo o que tinham vivido? E, mesmo na hora da despedida, não teria audácia para a beijar apaixonadamente como há meses esperava?”, pensava Melissa. No mesmo sítio onde se conheceram há meses atrás, encontravam-se agora para decidir o futuro. Driss tinha pensado naquela semana e sabia de que forma aquela decisão alteraria a sua vida. “ Quero que saibas que a mais ninguém me entreguei assim, e que acredites que o nosso amor vai ser até ao fim. Mas os meus pais precisam de mim e a minha vida é lá. Vou sentir muito a tua ausência…”. Melissa não podia acreditar no que acabara de ouvir. Ele ia deixar para trás o que tinham vivido, sim. Pensava ela que sem explicação, iria sair da sua vida da mesma forma que tinha entrado: inesperadamente. A despedida de Driss tinha sido dolorosa. Ajudara-o em todo o processo da viagem e, já no último momento, despedira-se dele com a promessa de contacto permanente e de, um dia talvez, um regresso. Separados por um espesso vidro, lançavam os últimos olhares: como era agora igualmente espessa a barreira que os separaria. Por entre terra e mar, disjuntos pelo inexorável destino, dois corpos que um dia desejaram estar juntos. O último adeus. Passavam dias, semanas…Seis meses tinham-se completado desde a partida de Driss. Melissa continuava a dedicar todo o seu tempo aos estudos. Tinha um sonho de vida e lutaria até ao fim para o concretizar. Mas algo estava diferente. Continuava dedicada e empenhada nos estudos, mas as notas tinham reflectido um cansaço, cuja causa não se identificava à primeira vista. Seria a distância da sua terra natal? A dificuldade de adaptação a um novo ambiente, bastante mais complexo do que o seu anterior? Sim, mas de certa forma todas as diferenças se esbatiam quando comparadas com a ausência do fiel e conselheiro ombro amigo de Driss. Como sentia a sua falta! E os meses continuavam a passar. Mês após mês, carta após carta o vazio penetrava em seu coração. E, depois de três anos sozinha, Melissa mantinha a esperança. Mas as cartas ou as lembranças, rareavam. De uma carta por semana, Driss passou apenas a escrever uma de três em três meses. Seriam poucas as notícias, muita a dor do sofrimento, ou já o esquecimento? Eis que chegara ao final do seu mestrado. Melissa sentia-se agora apta para integrar o mercado de trabalho. Tinha várias propostas, um futuro promissor. Contavam-se participações nas maiores multinacionais, relações internacionais ligadas ao sector económico, uma carreira brilhante esperava-a. Mas o futuro é sempre incerto. E, apesar de todos os planos, o bafejar do destino tudo mudaria. Melissa ia em direcção à sua residência universitária. Estava na hora de abandonar o seu abrigo dos últimos anos. Ao sair para a rua, com as malas na mão, relembra aquela mão que se estendera para ela, ali, e alteraria a sua vida para sempre. Distraída, deixa cair uns papéis e uma mão os recolhe e leva até si. O meu rosto de tez morena de há anos atrás olha-a ternamente. Agora juntos, tudo mudaria. Podiam ter sonhos diferentes e, aparentemente, tudo neles se mostrava distinto. Mas, apesar das diferenças, partilhavam um sentimento maior do que eles e maior que tudo – o verdadeiro amor.

2 comentários:

Cláudia 12ºF disse...

Parabéns Martinha!!! Está um belíssimo texto acredita. Muito bem escrito!

Diana Monteiro disse...

Martinha escreves muitissimo bem!!
Parabéns!!


beijo querido