terça-feira, 9 de dezembro de 2008

"O Vazio depois de Ti" por Ana Andrade

Nota da autora: Este texto foi escrito na altura da morte da irmã da minha amiga Elsa. Neste texto tento encarnar e transmitir os sentimentos despertados na Elsa por essa partida precoce. Por este motivo, o narrador do texto fala como se de uma personagem se tratasse.

Dedicado à Elsa

Num momento estás aqui e eu posso tocar-te, passar a minha mão nos teus cabelos, como que dizendo que estou feliz porque estás comigo. Posso abraçar-te só para sentir o teu coraçãozinho bater-te dentro do peito: o sinal de que preciso para sentir que estamos juntas para sempre e que nenhum punhal carregado de dor nos vai cravar no coração a angústia de nos perdermos uma à outra. Abraçar-te dá-me a certeza de que estarás sempre aí, do outro lado do espelho, à espera que, num dia chuvoso, eu irrompa pelo quarto e te peça consolo porque um qualquer Nada rompeu a teia de ilusões que eu criara à volta de tudo. Num momento eu ouço-te repetir que me amas e eu relembro-te que também te amo porque és minha irmã, a minha imagem do outro lado do espelho que se uniu a mim numa comunhão de sangue e amor. A minha imagem que partilhou o mesmo ventre, o mesmo leite materno, o mesmo carinho dos pais… Invariavelmente, somos um pedaço dos mesmos corpos que se uniram para nos criar, somos um pedaço da mesma alma, uma voz da mesma boca que se separou quando enfrentou a realidade desta tão precária existência. Pertencemo-nos! Num momento posso fechar os olhos com segurança porque sei que, quando os abrir, tu estarás diante de mim, a sorrir-me e a dizer que tudo está bem porque estás comigo… Num outro momento as chuvas inundam cada pedaço do meu corpo, provocando um dilúvio de angústias que me afogam a alma. Num outro momento, não te disse o quanto te amava e o quanto precisava de ti, porque eras a parte de mim que me puxava sempre para a Vida quando o mais recôndito de mim me puxava para o Esquecimento. Num outro momento esqueci-me de existir porque tu já não existias, porque te aventuraste num mundo onde eu não estava presente. Porque deixaste de ser o meu reflexo no espelho e passaste a ser um dos anjos que carrega o peso do mundo às costas; um dos anjos que, por cada ser que sofre uma dor desumana, sente o punhal do sofrimento cravejar-lhe o peito. Num outro momento fecho os olhos mas tenho medo de os abrir e, por isso, permaneço cega perante as atrocidades que se abatem sobre tudo. Fecho os olhos na esperança de, quando os abrir, verificar que estiveras sempre diante de mim, sorrindo, esperando que eu os abrisse para me repetires mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez que me amas e que nunca me deixarás… Num outro momento abro os olhos e sinto-os arder no esforço cruel de os obrigar a ver-te, de os obrigar a distinguir-te no meio das sombras do quarto. Sei que não estarás mais aqui, sei que não poderei lembrar-te uma vez mais, e uma vez mais, e uma vez mais que te amo. Sei que não mais chorarei no teu colo. Sei que um pedaço de mim partiu, mas recuso-me a deixar-te ir. Continuei à tua procura durante muito tempo nas sombras do quarto. Um dia desisti de procurar-te cá fora e comecei a procurar a parte que me falta dentro de mim. Passo a maior parte do dia de olhos fechados, perscrutando em cada milímetro da minha mente por um vestígio da tua presença. Procuro, procuro, procuro: só encontro vácuo. Um vácuo que ressoa como um grito silencioso nas paredes de um quarto vazio. O vácuo. O vácuo. O vácuo. Sempre o vácuo. Num outro momento já não estavas aqui porque tinhas morrido.

4 comentários:

Marta Monteiro disse...

Texto fantastico!!
Parabens Ana!!

bjo

Anónimo disse...

sem dúvida um texto que atinge o coração de toda a gente.

muito bem..

bjnho

Liliana 12ºF

Anónimo disse...

Muito bom!

Parabéns Ana!

Maria José Vilas Boas 12ºF

Diana Monteiro disse...

parabéns colega!


beijo