segunda-feira, 3 de março de 2008

Maria Gabriela Llansol (1931-2008)

Maria Gabriela Llansol, escritora que viveu "à margem da literatura"
A escritora Maria Gabriela Llansol, falecida hoje, deixa cerca de trinta obras marcadas por uma escrita inovadora e à margem da literatura, tal como a própria autora escolheu viver, em Portugal e na Bélgica.
Maria Gabriela Llansol nasceu em Campo de Ourique, Lisboa, a 24 de Novembro de 1931. Licenciou-se em Direito e em Ciências Pedagógicas e em 1965 exilou-se na Bélgica durante 20 anos. Foi na Bélgica que escreveu aquela que é considerada uma das suas mais importantes obras: O livro das Comunidades, de 1977. Quando regressou a Portugal, nos anos 1980, foi viver para Sintra, onde, por opção, se isolou. João Barrento, ensaísta e amigo da escritora, recorda que Maria Gabriela Llansol viveu à margem da literatura, embora tenha recebido vários prémios literários. Entre as distinções contam-se, por duas vezes, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritora, em 1990 (Um beijo dado mais tarde) e em 2006 (Amigo e Amiga). Maria Gabriela Llansol deixa contos, romances e dezenas de cadernos de diários que revelam "uma vertigem de escrita", diz Barrento. Dedicou-se ainda à tradução de autores como Rilke, Rimbaud, Baudelaire e Paul Éluard. No site da Assírio & Alvim, casa que editou algumas obras de Llansol, Maria Etelvina Santos escreve: "A língua do texto llansoliano faz uso de uma energia tensiva que procura dar a ver a coisa, não através da representação, mas pela sua presentificação". "Também não encontramos personagens, com vida e morte previsível, mas figuras, hóspedes e peregrinos do texto (as mesmas figuras percorrem vários livros), que não têm de ser necessariamente humanas", assinala Maria Etelvina Santos. A sua escrita é apresentada como hermética, irrepetível e não catalogável, que segue um rumo muito próprio, sem cedências aos parâmetros do romance ou do conto. Ao longo da sua vida, Maria Gabriela Llansol deu raras entrevistas, mas nos últimos anos mostrou-se mais aberta ao contacto com o público, ultrapassando assim a sua timidez e isolamento, recorda João Barrento. Além de Amigo e Amiga, Amar um Cão é uma das mais recentes obras, que a Assírio & Alvim acaba de lançar, e que inclui desenhos de Augusto Joaquim, marido da escritora, recentemente falecido. A obra de Maria Gabriela Llansol inspirou recentemente um espectáculo de dança e cinema, intitulado "Curso de Silêncio", uma criação conjunta do realizador Miguel Gonçalves Mendes e da coreógrafa Vera Mantero. Falecida aos 76 anos, vítima de cancro, Maria Gabriela Llansol deixa o seu espólio à Associação de Estudos Llansolianos, que 2006, tem estado a digitalizar e transcrever os cerca de 70 cadernos de diários e outros manuscritos escritos sobretudo nos últimos vinte anos. © 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.2008-03-03 13:30:03

2 comentários:

Maria José disse...

Realmente era um pouco desconhecida, pelo menos para mim...
Não sei se numa opção destas, de isolamento voluntário, são mais as vantagens ou desvantagens, mas a verdade é que é uma boa forma de não correr riscos ser influênciada pelas tendências da época e conseguir a máxima concentração para trabalhar e escrever segundo o que realmente vai na alma. Por outro lado, talvez o trabalho produzido não receba tanta atenção, podendo mesmo passar despercebido e/ou ser desvalorizado.
Contudo, ainda há quem consiga ver o seu trabalho reconhecido e valorizado e há que louvar quando isso acontece! Grande feito desta autora! E daqueles que souberam reconhecer o seu mérito!

Nitó Nogueira disse...

Desconhecia a escritora. É realmente incrível a quantidade de bons escritores que são, por nós, desconhecidos. Há sempre tanto para descobrir. E é triste quando só descobrimos e reconhecemos autores em tais circunstâncias. Mais um talento perdido. Logo agora que os verdadeiros talentos são escassos e difíceis de encontrar.
Fiquei curiosa. É uma autora que irei, certamente, ter em conta daqui para a frente.

Aproveito também para desejar um Feliz Dia da Mulher. Esta autora é um exemplo de que as mulheres podem ser alguma coisa. Alguma coisa fantástica. Cada vez mais conquistamos a liberdade e patamares que outrora nos estavam vedados. Tenham orgulho!